Estava sentada debaixo da árvore roxa, com o olhar fixo naquele túnel mágico forrado de pelúcia.
Seus pés balançavam para lá e para cá, em um tique nervoso.
Sua franja cobria-lhe os olhos.
Esperou.
Então... A outra aparecia.
Meio apressada, meio avoada. Caminhava por entre os prédios laranja.
Seu cabelo escuro fazia contraste com o resto do mundo, que era mais colorido que o nosso.
A garota da árvore roxa se levantava, certificava-se que estava bem escondida, e observava.
Era assim todos os dias, desde que viu a outra pela primeira vez, quando ia caminhando para o supermercado.
A outra desviou o caminho do túnel, e sentou-se debaixo de uma árvore próxima à roxa, uma árvore verde, como sempre fazia. Olhou para o céu, protegeu os olhos do sol, jogou o corpo para o lado e...
O coração da garota com a franja nos olhos parou por mais de um segundo.
A outra a olhava fixamente.
Não era pra ser assim. Não era.
Tirou a franja dos olhos. Retribuiu o olhar.
A garota da árvore verde sorriu.
“E agora?”
Ficou parada embaixo da árvore roxa. Imóvel.
A garota de cabelos negros se levantou, passou pelo pasto que separava as duas árvores...
- O que está fazendo debaixo dessa árvore roxa?
- O que estava fazendo debaixo daquela árvore verde?
Nenhuma respondeu por alguns segundos.
- Gosto dessa árvore.
- Gosto mais das árvores verdes, as flores delas são coloridas.
- Ah...
O silêncio veio por alguns minutos.
- Posso roubar uma dessas flores da sua árvore verde?
Encararam-se.
- Não precisa...
-...
-Quando você me vir passando novamente, vou estar com duas flores da minha árvore... Porque no mundo mágico só existem duas árvores roxas, sabe? Aí eu vou deixar minhas duas flores nas duas árvores roxas para você. Na que você estiver, você pega e guarda. E por mais que o tempo passe, elas não murcham.
- Então... Eu vou guardá-las para sempre.
- Vai?
- Vou. E quando eu as vir, lembrarei de você. Vou pegar as duas. Uma eu guardo em um lugar escondido, para ninguém pegar, para não estragar. E a outra... Eu guardo debaixo do travesseiro, para sentir o cheirinho toda noite. E toda noite lembrar que foi você que me deu.
Pausa.
- Você precisa me dar algo também...
- Preciso?
- Precisa. Como vai lembrar-se de mim?
-Lembro disso todos os dias, quando corro apressada para me esconder atrás de uma árvore roxa só para te ver passar, só pra ver como é bonito você se jogar debaixo de uma massa de flores coloridas e ficar se escondendo do sol.
- Nossa. Não sabia que fazia isso...
- Faço isso, e faria muito mais se não tivesse a possibilidade de você descobrir e não gostar de mim.
- Mas não existe essa possibilidade.
-...
- Preciso ir.
- Já?
- Já. Não quero que enjoe da minha presença.
- Também não existe essa possibilidade.
-...
-Até logo.
- Espero.
Baseado na história do "mundo" de Fernanda e Bruna.
http://piggiesinthesky.blogspot.com/2010/06/bolinho-dos-desejos.html
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